Estrangeiro no Brasil | Minha perspectiva sobre o racismo por Ben Phalan
Hoje quem está com a palavra é Ben Phalan. Ele é irlandês, casado com uma brasileira e está morando no Brasil há 1 ano. Ben estuda português na UFBA e, nesta postagem, compartilha conosco a sua perspectiva sobre o racismo. Se quiser participar dessa discussão e/ou deixar alguma mensagem para Ben, é só escrever o seu comentário abaixo. 😉
Eu morei três anos nos Estados Unidos antes de chegar no Brasil (eu sou irlandês). De início eu achei que no Brasil existia menos racismo que nos EUA. Lá, eu não conseguia fugir das notícias. Todos os dias uma nova história de mais um homem negro, inocente, em casa, no trânsito, sem armas, matado pela polícia. Minha esposa, Brasileira, sempre diz que os EUA são um país rico de terceiro mundo. Tem tanto dinheiro, mas se você é pobre, ou negro, ou imigrante – que pena! Vai ser tratado sem respeito, de forma desumana.
Eu pensei que o Brasil era diferente. Parecia um país multirracial, e eu, durante as minhas visitas, sendo branco e homem, nunca tinha visto de perto o racismo. Sem pensar muito no assunto, acreditei no mito de democracia racial. Mas, depois de ficar aqui um ano, parece que o país tem os mesmos problemas que nos EUA. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. Pense, um momento, nas famílias, nas vidas, destruídas por isso. Cada dia, sessenta mães perdem um filho. Claro que brancos são assassinados também, mais ter pele escura é ainda mais perigoso.
As famílias negras que foram escravizadas, há muitas gerações, continuam, em sua grande maioria, pobres. E os descendentes de colonizadores que eram os donos de escravos continuam ricos. A classe média é muito mais branca do que negra, mesmo em Salvador, a cidade no Brasil com a maior população de afro-brasileiros. Logo depois de chegar, eu fui convidado para uma festa de ano novo em Salvador. Quase todos os convidados eram brancos, e, seguindo a tradição Baiana, vestiam roupa branca. Por outro lado, quase todos os funcionários eram negros, e vestiam uniformes pretas. Não era ano novo para eles – era simplesmente outra noite de trabalho. Para mim, aquela desigualdade era tão óbvia, mas ninguém notava. Não era possível curtir a festa, no meio de tanto luxo misturado com desigualdade.
Eu não acho que os convidados (ou organizadores) da festa de ano novo queriam maltratar ninguém. O problema é muito maior que as atitudes individuais, e não é uma questão de culpa pessoal. Chamar alguém racista não ajuda. Ninguém vai admitir “eu sou racista”. O problema é que tem um sistema que perpetua as desigualdades do passado. Sem querer, fazemos parte de um sistema que nunca escolhemos. E eu, enquanto branco, recebo os benefícios de mais de quinhentos anos de colonização.
Podemos perguntar: como quebrar esse ciclo? Primeiro, temos que reconhecer que vivemos num sistema racista. Estou falando dos brancos como eu – afinal, quem tem a pele de outro cor já sabe. Segundo, precisamos mudar o sistema: como indivíduos, e, mas importante, ao nível político. Temos que lutar contra mil desigualdades para que um dia possamos dizer verdadeiramente que todas as pessoas tem oportunidades iguais.





ótimo texto. parabéns. temos que refletir mais sobre racismo.
Bombástico! Visão retada, escrita muito boa!!
Muito boa sua reflexão! Aqui onde moro, em Brasília, tem uma localidade em que podemos ver isso claramente. A cidade segrega os grupos, e podemos identificar sem dificuldade as cidades onde há mais expressão de desigualdade. E essas cidades são as mesmas que são apontadas como mais carentes de recursos, infraestrutura, taxa de emprego e alfabetização. É um longo caminho para recorrermos até a igualdade.
Incrível!
É necessário estarmos sempre atentos aos pequenos comportamentos a nossa volta. O racismo está presente mesmo de maneira silenciosa.
Ben surpreende com sua escrita e seu posicionamento. Parabéns!
Obrigado pelas respostas, Igor, Iris, Marylia e Nathan! Foi interessante para mim pensar um pouco mais sobre o tema. Marylia, obrigado por compartilhar sua experiencia em Brasília. É um longo caminho sim! Mas precisamos começar o melhor que pudermos. Eu concordo, Nathan, que o racismo continua quando nós não falamos contra ele.
O racismo que se veste de atos cotidianos é o que perpetua o racismo escancarado e da violência verbal e física. Claro que na prática ele é o mais sutil, mas ainda sim tem o poder da ofensa. Bom texto!